
A gente pensa: "Estou no Far, Far West...."
A gente pensa: "O Clint Eastwood vai entrar agora por aquela porta com o Bom, o Mau e o Vilão."
A gente pensa: "Vou derreter circuitos com este calor..."
Mas
Damaraland é um deslumbre, com as suas montanhas de planaltos de filme de cowboys em alegre promiscuidade com o Out of Africa.
Tiptoe, o elefante que esteve demasiado perto de mim e me pregou um cagaço de morte


Estamos em território de elefantes, de bandos de avestruzes a correrem como tias loiras histéricas aos saldos, de bandos de babuínos como gangs de assaltantes na Linha de Sintra.
Em Twilfelfountain (A Fonte Duvidosa) há gravuras rupestres com 4 mil anos, de caçadores recolectores que foram mais abaixo, percorrendo a costa, e que desenharam pinguins de Magalhães, focas e baleias à mistura com girafas e elefantes, em grandes lajes de terra vermelha. Eram as lousas dos tempos de escola do Neolítico, provavelmente. Uma sala de aulas na savana. A estrutura turística montada à volta do local das gravuras ainda é deficitária (não há brochuras ou livros ou material didáctico para apresentar e os guias são lentos, chatos e vê-se que estão a fazer um grandioso frete) mas vale pelo pedacinho de História ao ar livre.
E à tarde, a querida Rosie (já apresento esta mulher fantástica mais à frente), a nossa Rosinha Africana, leva-vos de carro para admirar um maravilhoso pôr-do-sol numa colina (levem agasalho, que o ventinho é agreste...), patrocinado por uma bebida qualquer, como diz a cantiga, e desafia-vos as goelas para um serão de cantorias, mais tarde.
Na esplanada de Doro Nawas, ainda com o sol demasiado alto. Lá dizia o outro: "As nossas noites são mais bravas que os vossos dias...."Na manhã seguinte... penduka às cinco e meia, para ver elefantes. Há uma população residente de cerca de 25, em Damaraland e é preciso uma hora de jeep até chegar a eles. Todos têm nome, posto pela Rosie e até por outros hóspedes do Lodge: eles são o Govenor, a Flora, o Tiptoe. Rosie desenhou-os a todos num pequeno caderno de bolso: os nomes, o formato das cabeças, das presas, das orelhas, das manhas, das crias.
A dignidade no porte, os olhos ternos, a certeza que, apesar disso, estamos perante um animal selvagem que pode investir contra nós e esmagar-nos ao mínimo descuido; a maneira como protegem os seus, o conceito de família que também têm... tudo te comove, porque este sim, este é o rei dos animais, um dos que tem mais pontos em comum connosco: choram os seus mortos, não perdoam afrontas, não esquecem um cheiro, não esquecem os lugares que são a "casa" do grupo (mesmo quando estão há anos sem lá aparecer), têm joelhos (!) e quando os dobram é em solene indolência ou quase em prece, como nós.
Flora e a sua cria... se a memória não me falha, que a Rosie é que percebe disto de elefantes.
E à noite, depois da Rosie e colegas vos encantarem com as poderosas vozes negras de coral e vos puserem a abanar o rabo ao som da "Amarula", deixem-se subir até ao terraço do Lodge de Doro Nawas, peçam para desligar todas as luzes menos os milhõezinhos de pontos celestes. Estendam-se ao comprido, voltem o olhar e os coração para o alto e deixem-se embalar, que o deslumbre é garantido e outro céu assim não vos aparecerá em muito tempo.
Aqui não há tempo para pedir desejos, de tantas estrelas cadentes a riscar o céu. De repente o Universo é um bar aberto e o Caçador segue o Touro que segue a Cintura de Orion, que se perde nas Nuvens de Magalhães que chovem luz prateada no céu de Doro Nawas (e o Mark, armado em Carl Sagan, de lanterna na mão, aponta-as e explica tudo...) e o Cruzeiro não alinha com o ponteiro da bússula. Aqui, amores, perde-se o norte porque o sentido certo é o Sul.
Não admira que três almas penadas mal tenham ido à cama, nessa noite, e abrissem goelas à confissão e o coração à Amarula. "Amaze to stumble where Gods get Lost, beneath the Southern Cross...", como diz a tia Patty.

Quem resistir à madugada será recompensado...